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Romanos 10.14...
"... Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?..."

15 de fev. de 2010

QUEM PODE BATIZAR NAS ÁGUAS: A QUESTÃO BÍBLICA


O Blog Fronteira Final, do nobre companheiro e pastor Antonio Mesquista, publicou um post intitulado "A armadura é de Saul; a funda é de Davi; a pedra é Cristo", questionando o fato de um membro da igreja Assembleia de Deus, o irmão Ronaldo Rodrigues de Souza, ter batizado outro irmão em Cristo nas águas.

Alguns leitores pediram a minha opinião sobre o assunto, principalmente no sentido de saber se há fundamentação bíblica, histórica ou denominacional para tal prática, visto que foi realizada por alguém que não é do ministério da igreja, nem batizado no Espírito Santo.

Para colocar a minha opinião sobre o episódio, que independe de quem esteve envolvido, pois a questão não é esta, publicarei dois ou três posts.

A princípio, me basearei na afirmação abaixo, feita pelo companheiro Antonio Mesquita:

"Nunca se teve notícia, nem na história bíblica emuito menos na da assembleiana de um membro da igreja batizar outro. Será que os padrões assembleianos serão desprezados? Que o legado deixado por nossos pioneiros será jogado às traças? Isso é um verdadeiro absurdo e por isso não pude deixar de expressar-me, pois trata de ataque à base doutrinária e, sem ela, seríamos reduzidos ao Movimento G-12. Desde o princípio, a partir da escolha dos apóstolos, está patente o selo do Espírito: '…veio sobre eles o Espírito Santo e falavam em línguas…' (At 19.6) e ainda sobre a direção da escolha: '… pareceu bem ao Espírito Santo e a nós' (At 15.28)."

QUEM PODE BATIZAR NAS ÁGUAS: A QUESTÃO BÍBLICA

A primeira questão a ser discutida é a seguinte: o batismo nas águas pode ser ministrado, dentro da perspectiva bíblica, por alguém que não é membro do ministério? Minha resposta é sim.

Observemos os textos onde o batismo é ordenado:

"Seguiram os onze discípulos para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes designara. E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram. Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século." (Mt 28.16-20)

"Finalmente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que tinham visto já ressucitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado." (Mc 16.14-16)

Com base nos textos acima, a princípio, pode-se entender que a ministração do batismo seria realizada exclusivamente pelos "onze", ou, deduzindo-se disso, por seus sucessores legítimos, visto que parece ser apenas com os "onze" que ele (Jesus) fala nestas passagens.

Em Atos 2.41, após o derramamento do Espírito e a mensagem de Pedro, lemos que:

"Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas."

A pergunta é: quem batizou essas quase três mil pessoas? Foram apenas os apóstolos, ou alguns dos 120 discípulos participaram (At 1.15)? O texto não deixa claro.

Durante a primeira perseguição à igreja (At 8.1ss), Filipe, um dos diáconos (At 6.5), descendo à cidade de Samaria realizou bastismos em águas:

"Quando porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres. O próprio Simão abraçou a fé; e, tendo sido batizado, acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres praticados." (At 8.12-13)

Observe que Filipe não tinha nenhuma "função ministerial" (nas Assembleias de Deus o diácono não faz parte do ministério, que é composto pelos presbíteros, evangelistas e pastores). Mesmo que alguém afirme que em Atos 21.8 Filipe é chamado de "evangelista", como já escrevi, "evangelista" não era na perspectiva bíblica um ofício na igreja (Leia AQUI).

Na sequência dos eventos, encontramos Filipe batizando o eunuco no caminho que desce de Jerusalém a Gaza, no deserto (At 8.38):

"Então, mandou parar o carro, ambos desceram à água, e Filipe batizou o eunuco."

Um outro fato interessante em relação a quem pode batizar nas águas encontra-se no contexto da conversão de Saulo. Diz a Bíblia (At 9.1-19). Após ficar cego, Saulo é orientado pelo Senhor a entrar na cidade de Damasco, onde foi recebido na casa de um certo Judas. Simultaneamente, um discípulo (apenas discípulo) chamado Ananias é orientado a ir atá a casa de Judas para lá impor as mãos sobre Saulo, para que recuperasse a vista. Após obedecer as orientações do Senhor, nos diz a Bíblia que:

"Imediatamente, lhe caíram dos olhos como umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado." (At 9.18)

A pergunta é: Saulo foi batizado por quem? Por qual diácono, evangelista, apóstolo ou detentor de alguma outra "função ministerial"? O contexto nos leva a entender que o próprio Ananias (um simples discípulo), batizou Saulo.

Dessa forma, comprova-se biblicamente que o batismo nas águas não é prerrogativa apenas dos apóstolos ou oficiais da igreja. Discípulos batizaram discípulos.

Na segunda viagem missionária de Paulo temos alguns textos que relatam batismos:

"Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia. Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa, nos rogou, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e aí ficai. E nos constrangeu a isso." (At 16.14-14)

Quem batizou Lídia? Paulo, Silas, Timóteo ou Lucas? O texto não diz.

Na conversão do carcereiro lemos que:

"Naquela mesma hora da noite, cuidando deles, lavou-lhes os vergões dos açoites. A seguir, foi ele batizado, e todos os seus". (At 16.33)

Quem batizou o carcereiro e os seus? Paulo e Silas? Paulo ou Silas? Apenas Paulo? Apenas Silas? O texto não diz.

Levanto essa questão com base numa declaração feita pelo próprio apóstolo Paulo, encontrada em 1 Co 1.14-17:

"Dou graças [a Deus] porque a nehum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo."

Perceba que na fala de Paulo o ato de batizar não é percebido como tarefa exclusiva, primordial ou obrigatória do apostolado. O fato de não batizar, não diminuia a sua missão ou ministério.

A QUESTÃO DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO COMO PRERROGATIVA PARA SER CONSAGRADO ÀS FUNÇÕES MINISTERIAIS E CONSECUTIVAMENTE BATIZAR EM ÁGUAS

"Ocorre que Ronaldo nunca fora consagrado a qualquer função ministerial por não ter recebido o batismo no Espírito Santo. Na doutrina pentecostal, em especial assembleiana, todo e qualquer obreiro para ser levado tanto ao ministério quanto ao oficialato da igreja, necessita, primeiramente, passar pela confirmação do Senhor, que se dá pelo batismo no Espírito Santo." (Fronteira Final)

Eis aqui outra questão controversa. Do ponto de vista bíblico, o batismo com o Espírito Santo é prerrogativa para a "consagração ao ministério"? Minha resposta é não. Eu diria que um pastor, um presbítero ou um diácono batizado com o Espírito Santo é "revestido de poder" (Lc 24.49; At 1.8), sendo essa uma condição "ideal" para o exercício das funções, mas, não exatamente uma condição indispensável.

Em Atos 6.3, onde se lê que dentre as qualificações para o diaconato (embora o texto não fale em diáconos) que os mesmos deveriam ser cheios do Espírito Santo, vale lembrar que entre os assembleianos não se tem unanimidade no significado de "ser cheio do Espírito Santo". Ser "cheio do Espírito Santo" é a mesma coisa de ser "batizado no Espírito Santo"? Certa vez, ao questionar certo pastor presidente sobre a questão, tive a seguinte resposta: deixa isso quieto.

Nas qualificações para o exercício do presbitério, do episcopado ou do diaconato, encontradas em 1 Timóteo 3.1-13 e Tito 1.5-9, não se encontra com pré-requisito o fato de ser "batizado no Espírito Santo.

Repito, que entendo esta condição como "ideal" para o exercíco ministerial, mas não "indispensável" à luz da Bíblia e no contexto cristão geral. O que o batismo no Espírito Santo nos outorga é mais poder para fazer a obra. A idéia de ser utilizado como "confirmação do Senhor" para o exercício ministerial não se sustenta biblicamente.

Em razão dos argumentos colocados pelo pastor Antonio Mesquista, tem acontecido o seguinte:

- Muitos entendem que por não ser batizado no Espírito Santo, o indivíduo não tem condições de ser oficial da igreja e nem de ensiná-la sobre esta verdade bíblica. Esse argumento é falho, pois seguindo a mesma lógica um oficial da igreja solteiro não teria condições de falar sobre casamento, quem não recebeu os dons espirituais de curar, a palavra da sabedoria, a palavra do conhecimento, operações de milagres, profecia e etc, não teriam condições de ensinar sobre os mesmos e assim por diante;

- Homens íntegros e capazes são excluídos das consagrações pelo fato de não terem sidos batizados no Espírito Santo (e por não falarem em línguas), enquanto outros, que são batizados (e falam em línguas) são consagrados, mesmo com uma vida pessoal (familiar, social e eclesiástica) reprovável. Muitos homens de Deus passam anos esperando a tal "confirmação do Senhor", quando deveriam ser analisados à luz da Palavra, enquanto alguns adúlteros, mentirosos, caloteiros e tranbiqueiros são recebidos em alguns lugares, no ministério, por serem batizados no Espírito Santo ou por algumas outras razões que passam ao largo da Bíblia sagrada. É o carisma sem caráter;

- Seguindo essa mesma lógica "pentecostal assembleiana", ao longo da história (e na atualidade), nenhum pastor, presbítero ou diácono de qualquer outra denominação protestante ou evangélica, que não foi batizado no Espírito Santo, ocupou, ou ocupa legitimamente essas funções. Respeito a chamada concepção "pentecostal assembleiana" sobre o assunto, mas não concordo com a mesma em sua íntegra.

A idéia exposta no texto do Fronteira Final, que cita Antonio Torres Galvão afirmando que o batismo no Espírito Santo do Novo Testamento correspende a unçao com azeite do Antigo Testamento, não se sustenta exegeticamente nem hermenêuticamente, pois dessa forma Elias, Jeremias, Daniel, Ezequiel e outros profetas que não foram contemplados com este ato simbólico estariam desqualificados para a função. A ênsafe do Antigo Testamento está na ação do Espírito sobre o indivíduo e não em suas representações.

Reafirmo, que um membro da igreja, seja ele Diretor ou Auxiliar de Serviços Gerais de uma empresa, batizado ou não com o Espírito Santo, pode, em certas circunstâncias e situações, batizar nas águas, sem ferir princípios, fundamentos ou doutrina bíblica.

Concluo esta primeira parte de minha exposição, onde procurei me deter sobre o assunto na perspectiva bíblica, para daqui a alguns dias, se Deus quiser, abordar o tema sob perspectiva histórica e denominacional assembleiana.

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